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2 de junho de 2014

Postado por PUDIM RUSSO | Marcadores: , , ,
O primeiro autor tratado na nossa série de posts quinzenais que aborda personalidades do mundo sombrio foi o extremamente popular e conceituado Edgar Allan Poe. Hoje falaremos de um homem que infelizmente poucos conhecem, mas que tem obras valiosíssimas cujas quais todos que se dizem amantes da literatura devem ler - especialmente quem tem inclinação para o macabro. Maupassant não era especificamente um escritor do gênero extraordinário (extraordinário cotidiano talvez), mas seus textos em grande parte carregam sordidez o suficiente para assim serem classificados. Infelizmente o post de hoje será mais curto em relação ao primeiro por não haver tanta coisa que eu saiba a respeito de Maupassant e tampouco fontes que informem fatos inebriantes a respeito de sua pessoa - tal como a misteriosa morte de Poe ou o mistério das três rosas (ambos tratados aqui).
Enfim, embora pouco eu saiba da figura, Maupassant é um dos meus escritores favoritos; conheço bem sua obra e só digo uma coisa a respeito dela: leiam.


Guy de Maupassant

Henri René Albert Guy de Maupassant, ou simplesmente Guy de Maupassant (5 de Agosto, 1850, Fécamp - morto em 6 de Julho, 1893 Tourville-sur-Arques) foi um escritor e poeta francês com predileção para situações psicológicas e de crítica social com técnica realista. Foi amigo do célebre escritor francês Gustave Flaubert, a quem se referia como "mestre". Um dos maiores contistas de todos os tempos, teve uma infância e uma juventude aparentemente felizes no campo francês, em companhia da mãe, uma mulher culta, depressiva, que fora abandonada por um marido infiel. Na década de 1870, ele dirigiu-se a Paris, onde se notabilizou como contista e travou relações com os grandes escritores realistas e naturalistas da época: Zola, Flaubert e o russo Turgueniev.
Entre 1875 e 1885, produziu a maior parte de seus romances e contos. Escreveu pelo menos 300 histórias curtas, das quais algumas se tornaram universalmente conhecidas, como Bola de sebo, O colar, Uma aventura parisiense, Mademoiselle Fifi, Miss Harriett, entre outras. De forma muito rápida, conquistou o coração do público francês e o de outros países. Talvez tenha sido, nos últimos anos do século XIX, o escritor mais lido no mundo.
Com uma aversão natural à sociedade, ele amava a aposentadoria, solidão e meditação. Esta vida não o impediu de fazer amigos entre as celebridades literárias de sua época, embora: Alexandre Dumas tinha um carinho paternal por ele; em Aix-les-Bains ele conheceu Hippolyte Taine e tornou-se dedicado ao filósofo e historiador. Ele viajou extensivamente à Argélia, Itália, Inglaterra, Bretanha, Sicília, Auvergne (...) e de cada viagem trouxe de volta um novo volume. Seu editor, Havard, encarregou-o de escrever mais histórias, e mesmo sob pressão Maupassant continuou a produzi-las de forma eficiente.
A riqueza e a fama bateram à sua porta, e ele teve uma profusão de casos amorosos. No entanto, a partir de 1884 a sífilis manifestou-se em seu organismo, ocasionando-lhe uma doença nervosa feita de angústias inexplicáveis, de estremecimentos e de alucinações. Algumas dessas sensações estranhas e opressivas foram registradas em contos tão célebres quanto assustadores, como O Horla e É ele. Em 1892, após terríveis sofrimentos, tentou o suicídio. Internado num manicômio, veio a morrer no ano seguinte, em estado de semidemência, com apenas 43 anos de idade.


Obra geral

Além de romances e peças de teatro, Maupassant deixou 300 contos, todos obras de grande valor. Merecem destaque, entre os mais famosos, Mademoiselle Fifi eBola de sebo. "A Pensão Tellier" e "O Horla" podem ser considerados seus contos mais significativos.
Há quem julgue Maupassant um artista de superfície, por tentar reproduzir apenas a realidade exterior, sem maior aprofundamento psicológico. Alguns de seus contos, de fato, são crônicas de época; outros, meras anedotas. Contudo, como observou um crítico, “o escritor é profundo na aparente superficialidade porque reconhece o vazio da vida de suas personagens, que buscam o prazer, mas que encontram apenas a destruição fatal”.


Um aspecto que chama atenção na obra de Maupassant é a sua variedade temática. Poucos escritores conseguem dar esta impressão de registro de totalidade da existência, de criação de um universo fecundo, múltiplo e quase inesgotável. Como um pintor impressionista, Maupassant pinta as luzes de Paris: as que reverberam no Sena, as que cintilam nos parques e as que brilham à noite nos boulevards. Luzes que envolvem as personagens nos dramas essenciais da condição humana: a paixão, o prazer, a solidão, o tédio, a morte. É o cronista da vida européia do fim dos Oitocentos, mas também um escritor de dimensão universal.


O terror da loucura

Uma coisa muito interessante em Maupassant é que contos como Le Horla e Qui sait? descrevem fenômenos aparentemente sobrenaturais mas, no entanto, muita gente vem os tratando implicitamente como sintomas das mentes perturbadas dos protagonistas; Maupassant foi fascinado pela disciplina emergente da psiquiatria, e participava assiduamente das palestras públicas de Jean-Martin Charcot entre 1885 e 1886.
Há também uma forte tendência do perturbado e perturbador flanêur evidente em muitas de suas histórias, como no belíssimo La Nuit. O que direi a seguir é uma observação pessoal que fiz e não sei se ela tem quaisquer fundamentos lógicos além de meu delírio e necessidade de identificação com Maupassant, portanto peço que você, leitor, diga em qual aspecto concorda ou discorda do meu ponto.
Antes de mais nada, para quem não sabe, o flâneur é ser que observa o mundo que o cerca de maneira real e descritiva, levando a vida para cada lugar que vê. O flâneur descreve as cidades, as ruas, os becos, o externo. Desvincula-se do particular, recrimina o privado, de forma a ver a rua como lar, refúgio e abrigo. Este sentimento flaneuriano reflete a necessidade de segurança do indivíduo, a necessidade de identificação dele para com a sociedade. A rua é seu lar, seu mundo. Ali nada é estranho ou prejudicial. Na rua se sente confortável e protegido. O flâneur do século XIX representou a angústia da Revolução Industrial.
Creio que o narrador de La Nuit é um flanêur com gosto especificamente para a noite, e heroicamente é tragado por ela no final. Trata-se da narração de uma perambulação noturna por Paris, que vai da exaltação ao pesadelo. Pouco a pouco a cidade se esvazia- luzes e cores, sinais identificadores da
noite, apagam-se. A noite torna-se ausência de vida, escuridão absoluta, um buraco negro, conduzindo
o narrador-herói à afasia e ao apagamento. Inicialmente, na abertura, temos “a narrativa passional da noite”, figura do amor e do desejo de amar, que gradativamente forma um verdadeiro sentimento passional, levando o protagonista à estranha condução do conto. Logo ele está a observar mundos reais ou imaginários? A viagem na verdade é uma aliteração de seu interior? O andarilho está morto ou vivo, afinal?! Chega a ser opressor e claustrofóbico, e é ao nos passar tal sentimento instigante que Maupassant perturba-nos como o genial escritor fantástico que é, sem fazer uso de quaisquer elementos apelativos.
Como disse o amigo Luiz Riesemberg, os contos fantásticos de Guy de Maupassant obviamente não contêm cenas sangrentas de demônios arrancando as vísceras das vítimas e coisas do tipo. Trata-se de literatura de classe, de alta qualidade, que pode até não ter nada de sobrenatural conforme a interpretação do leitor, mas que fará até mesmo o mais cético ficar em dúvida e (por que não?), sentir calafrios pela espinha.


Conheça agora!


Trago ao visitante o endereço dos maravilhosos sites Contos do Covil e Garganta da Serpente, onde você pode ler muito mais não apenas de Maupassant também de outros magníficos autores do extraordinário. Abaixo, dois contos selecionados com muito zelo com o intuito de introduzi-lo à insanidade de Guy:


2 comentários:

Escreva, monstrinho.